sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Conto de Natal
Sem uma atmosfera adequada para desenvolver o que nela é inscrito e sem alguns dos compostos fundamentais para a sopa da vida, o que ocorreu foi inesperado. Aquela coisa, o que seria? Não dá para perceber com os sentidos humanos a concepção muito além do "puntiforme"na imensidão de hidrocarbonetos. Há quem nem chame de vida.
Faz algum tempo que a primavera no sul de Titã acabou, após seus quinze anos de duração. Ah, o verão encanta em qualquer lugar! Mesmo com o frio... A expansão dos gases em um desafortunado organismo nesse ambiente seria letal.
Na falta de referência do horizonte, o principal medo é o fim. Até que ponto a matéria pode ser reciclada, para o bem ou para o mal? É assim que abstrações se desfazem, afinal, o próprio tempo é um guia de autorretrato para os movimentos que lançamos. Para aquele pedacinho perdido num meio que, de longe, parece bem maior...
Sem qualquer desejo maior que a mente, a vida se escrevia entre ácidos cianídricos e acetilenos. Em um jogo de xadrez empático, "aquilo" seria apenas mais um peão do destino, e não fugiu desse padrão. Quem dera se tomasse consciência de como é influenciado e selecionado...
Vulcões gelados, talvez um começo para aquilo que um dia será. Antes disso, o espetáculo "super novo" ganha mais um ingrediente: lá chegaram recados gravados em CD-ROM para futuros turistas espaciais. E assim se constroi mais um pixel da grande interrogação na fábrica de impulsos nervosos.
sábado, 18 de dezembro de 2010
Gastos
Para depois querer destruir-se.
Quebra das ligações total
Para de mentiras entupir-se.
De que adianta a vida,
Se ela acaba?
De que adianta um trabalho unido,
Se ele desaba?
Campo psicológico
Com suas interferências,
De um sádico e neurótico
Com a razão, as ciências.
Medo distorce
As palavras que sou
Fome amortece
Quem um dia amou
Possibilidades de ti
Ao expor o cansaço
Em linhas reparti
Provando o quão és falso
domingo, 24 de outubro de 2010
O Labirinto do Fato
Não existia o nojo pelo alimento, a repulsa e o gosto. Existia a necessidade básica satisfeita, apenas. Não existia alguma incapacidade emocional maior, existia o aprendizado sem a cobrança de um circo de palhaços irracionais. Talvez fosse maior que o estado da estrela, maior que o tempo.
O pequeno quarto decrépito e devastado pela própria desagregação do momento era o palco para a dança de ideias. Como uma ideia, se bem introduzida, pode contaminar alguém... Parti para o delírio de pensar além do fim, já que não é bom se espantar pelo que é colocado sobre esse marco. De fato, até a ideia de fim se liga com o tempo.
Algo semelhante a um canudo com muitas asas, claro e veloz passa pela projeção quase cinematográfica da janela para quebrar o que era muito além de um simples vício. Doce ilusão... "Transfira seu prazer! A energia é constante assim." Disse o traço intrigante que quebrou a dança. Se todo homem dissesse o que sabe, se o seu modelo fosse verdade...
Sinos dourados gritaram o pensamento cinza. O gosto voltou, assim como o choro da alma com cada gota da chuva de metano em Titã, baixíssima temperatura e extremos potencializados nas estações. O que poderia fazer ainda era contemplar o conhecimento sem culpa. Culpa...
Chorei então quando desprendi esses últimos laços que seguravam a casa aquarela, era o ar. Já sabia que agora o rei era as fezes do mendigo, o cachinho da menia, o sentimento que aqui nasceu e morreu. Seria agora tortuoso pelos caminhos errantes?
sábado, 2 de outubro de 2010
Afável
Grasnou qualquer coisa, seja para que o grotesco estrondo dentro de si cessasse ou só para ser desagradável mesmo. Precisava fazer alguma coisa, precisava fugir de si. Olhou, pegou, bocejou, se coçou, caçoou... estava feito, iria fazer algo.
Não poderia ser. Era estrambólico demais, logo para ele. Já até sentia a sátira alheia sobre sua alma perdida. Por que logo ele? Por que... com aquilo? Deveria ser tédio demais, ah, se era. O reflexo, que continuava a encará-lo, queria ir embora. Era o fim.
Deveria escolher um lugar que o deixasse com alguma liberdade para acabar com aquilo o mais rápido possível se fosse necessário. No divã? É óbvio que seria difícil sentar-se depois, mas iria ficar parado e descansar. Talvez isso seria um incômodo. Será que causaria alguma ferida?
A atmosfera estava favorável. Não haveria outra escolha, já separou aquele objeto fálico mesmo. Agora não poderia fisicamente se arrepender. Contando até três para o movimento final. A família, os amigos, o seu "eu" do homem branco corporativo e maduro não iriam aceitar. Não precisavam mesmo entender, gostava da ideia.
Um - posicionou os joelhos para que o resultado fosse melhor. Dois - coordenava os braços, portadores daquele "frasco" de quinta categoria que o consolava, com as pernas. Dois e quase meio - Tem certeza? Por isso fechou os olhos, era agora. Três... pernas e cabeças voando no logradouro marrom-cinza debaixo da janela da clínica, acertou uma senhora que a pouco lamentava os parágrafos que a vida escreveu para ela. "Filho da puta!". Correu e deu uma risadinha. Era uma vez o reflexo envergonhado de um terapeuta ocupacional.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Coup de Grace
Perseguição inconsciente
Da verdade coberta de insegurança.
Ela não é onisciente
A sorte só quer vingança.
Vazo a tripa em Dezembro.
Dela não me lembro,
Minha montanha russa no céu,
Maestria envolvida em breu.
Visão perdida,
Suicídio,
Encarecida
De um novo politicídio.
sábado, 28 de agosto de 2010
Erro Exponencial
Pessoas alegres Por odores acres Não sei o que adoro Por ser um esporo
Existe um motor imóvel Nessa coisa solúvel Alguma coisa deve existir Para ser automático e sentir
É sorumbático Mau e asmático Sua neurose Quer fazer osmose
Está roubando Pé inchado e queimando Para reconhecer a tragédia Nessa mais bela comédia
Boa postura Para a sutura Da mais nova matriz
Fico feliz
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Tabacaria
Htona está online novamente, 20comer entra...
20comer diz:
- Yo.
Htona diz:
- Oi! Tudo bem?
20comer diz:
- Bem, cansado. Você?
Htona diz:
- É, também. Assaltos são excelentes para dizer o mesmo depois...
20comer diz:
- Foi assaltada? Não achei pergunta melhor.
Htona diz:
- Pois é, saindo do trabalho.
20comer diz:
- Ah, normal. Todo mundo é, sabe? É uma das minhas coleções favoritas.
Htona diz:
- Levaram só dinheiro, por sorte. Adoro longas caminhadas, principalmente para quem odeio.
20comer diz:
- Eu mesmo já passei por quatro. Adoro brincar com eles, sendo que nunca acham o celular.
Htona diz:
- Imagino... Tentaram levar o Frappuccino.
20comer diz:
- Cruéis... E aí?
Htona diz:
- Ah, disse que tinha herpes. Eles não quiseram. Sabe, não sei se eram "eles" mesmo.
20comer diz:
- Ótima saída para roubo de Frappuccinos e possíveis estupros!
Htona diz:
- É até ofereci.
- Não quiseram ; )
20comer diz:
- Aí não é estupro.
Htona diz:
-A bebida...
20comer diz:
- Ah...
- Estou numa Lan House, preciso trocar esse nick urgentemente.
Htona diz:
- Concordo!
20comer diz:
- Olha quem fala...
Htona diz:
- Bem, você usa óculos escuros em dias chuvosos para pegar o lugar preferencial no metrô. Você não tem glaucoma ou escotoma.
20comer diz:
- A diferença é que não saio de casa sem uma ressaca.
Htona diz:
- Olha, até que você poderia tirar proveito do ano eleitoral com isso.
20comer diz:
- Já te mandaram engolir fezes para ver se viravam brigadeiro hoje?
Htona diz:
- Delicado como um rinoceronte numa loja de cristais.
Htona está offline
20comer está asnático.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
A vida e obra de Laura Gühter Beihrham - Cap. I
Roupas pra que te quero, degraus pra que te corro. Lá foi a bondosa Laura G. Beihrham, arrumou sua melhor cara para alguma simpatia com aquela visita. Acho que não era o suficiente... Enfim, vamos supor que a velha senhora Wilson a acolha com seus biscoitinhos de gengibre. Mais do que suficiente.
- Olá, Sra. Wilson! Lindo dia, não?
- Pequena Laura! Meus olhos de tempos passados não enganam mesmo. Como você cresceu!
Está à cara do seu querido pai. À propósito, acho que vai chover hoje...
Estava com pressa, os Beihrham eram normais mesmo. Sempre com pressa, e Laura não seria tão diferente assim. Um "tchau" para os olhos irrefutáveis da experiência, dois biscoitinhos e uma condução escolar lotada de "crionças". Não necessariamente com pontualidade tão admirada, mas pelo menos ia rápido.
Para aqueles que se interessam: uma blusa quadriculada amarrotada, Calvin Klein rasgada da última moda (linha ecológica) e algum tênis velho que pegou pelo caminho... espera, eram os tênis de caminhada de seu pai, usados. Aos 16 anos, Laura ainda ia no ônibus amarelão pra escola, cada vez mais emburrada.
Após várias balançadas, uma criança vomitou. Outra urrou qualquer coisa e jogou algo, que foi parar na cabeça da menos baixa daqueles lá.
- Laura cabeça de bosta, peido de porco!
Ela levantou e ia falar qualquer coisa, já farta com a situação. Um grito pairou no ar:
- Por favor, não mate as crianças! Nossa cidadezinha nunca teve um atirador sequer...
- Wayne, não mente para os mais novos e Laura, abaixa... isso.
Uma granada de brinquedo foi parar na sua mão.
- Só se me deixarem por aqui hoje!
Vitoriosa, a moça desceu do ônibus, perto de uma loja de lembranças. Mal aguentava aquele cheiro de massinha de modelar e algo com álcool do motorista, o famoso "Manobra Radical". O peso da mochila era grande, mas pelo menos sua estima estava em riba. Bem igual àquela vez que ela estava pantagruélica e não comeu a merenda de sua mãe, que segundos depois foi parar em sua própria cabeça.
Chegou suada e esbaforida, ainda vitoriosa. O Elroy conseguiu de alguma maneira que não convém ser mencionada colocar o sino do colégio ao som daquela conhecida do Psicose.
- Moedas a mais no bolso da blusa,ou você só está feliz em me ver?
- Argh!
- O Elroy é um trouxa. - Passou pela mente da menina, seguido por: - ... gosto do jeito dele, como um passarinho tão desajeitado e maltrapilho que não levantará voo.
Ela mal suportava a presença física do rapaz suado que roubava o perfume da avó. Clichê, não concorda? Deixo essas palavras para algum estoriador, esse casinho pouco importa.
Mortimer, o inspetor, escorregou feio dessa vez. Estava lá desinteressado, só para chamar os alunos para a aula de Física do dia. Para os alunos, "o amorzinho da gangue" e para a diretoria "o maluco desajeitado que era mais barato".
O quadro negro da Ausburn Grammar School conheciam bem Beihrham e as Pioneiras. Elas não
mandavam na escola, mas tinham um baita moral com a educação infantil.
- Laura peido de porco! Volta aqui!
- Elroy gonorreia! Tem aula agora!
- Ah, mas não é de Biologia.
Laura olhou para Maureen, uma das Pioneiras (que tentou forçar uma cara de má... forçou demais) e disse:
- O assassinato é o suicídio em que os expectadores morrem. Maureen, hora de fazê-lo aprender sobre vetores.
- Eu? Por que eu?
- Você acha que eu não percebi? Enfim, não importa.
Maureen e Sally fizeram o favor de derrubar o "gonorreia" e alguns outros moleques aleatórios. Uma cara de má de vez em quando faz bem, o medo é uma arma propícia da virtude.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Mnemônico
Querido Leitor,
Tudo passa, até a vida. De fato, para morrer só precisa estar vivo, como já dizia aquele velho bêbado de fim de noite da sua cidade preferida. Só quero adiantar esse processo, o que pode dar um pouco de trabalho.
Estou deixando esse bilhete, sobre o que por toda minha vida procurei. Tudo o que eu quero, preciso, é ter uma partícula que seja minha participando do desabrochar de uma rosa ou o canto de um pássaro.
Cortar-me-ei... tá aí uma coisa poética, bonita. É o único método que dá pra voltar atrás na decisão até pelo menos a metade do processo e sair. Olha que bonitinho e melodramático, ter o sangue saindo e, para manter a pouca chama acesa, ficar em uma banheira quente de quarto de
hotel de quinta categoria.
Melhor: posso dar um tiro na cabeça; Fácil, rápido e simples. Será perto de casa mesmo, o problema é errar milimetricamente a angulação
do tiro e pegar em alguma área não vital de coordenação muscular. Tentar outra vez esticado em uma cama de hospital com metade da cara paralisada é... esquece.
Beber até cair... Já faço isso, então não é em uma noite que vou tomar um porre dos infernos e morrer. No máximo, leitor, aí vai uma diarreia aguada, vomitar até as córneas saírem e ter mais uma ressaca. Vou estar como um zumbi decadente e na merda (literalmente), não morto. Pelo menos o barato vai ser inesquecível.
Remédio é coisa pra quem quer chamar a atenção, sabe? Se pelo menos morasse sozinho... Minha santa mãezinha sempre disse para ter cuidado com os venenos, como ela diz, e provavelmente me encontraria zureta e caído depois dessa. A lavagem intestinal não vai ser nada legal depois, mais ainda quando aquela enfermeira gostosa rir da minha cara quando estiver zonzo na cama.
De qualquer forma, é penoso, mas vai ter que ser em casa, sozinho. Longe de casa teriam mais custos e também, se me encontrarem
aberto e em decomposição num matagal há 300 Km de casa com aquelas revistas que o Armandinho trouxe da Holanda, só aumentariam os rumores e humores. No meio de muita gente, seria uma gafe enorme e sem saída se não conseguisse.
Precipitação em queda livre, já que todo mundo sonha em voar. Seria unir o útil ao agradável. O baricentro dos meus problemas, possuo sequer algo Normal. E se eu não me estabacar logo e tiver que suportar a vida inteira na cama com alguém pra me limpar?
Que tal eletrocutado? É chique, digno e possui um "quê" do velho causo acidental do barbeador ou secador na banheira. Pena que tem um monte de imprevistos na prática que podem me deixar como um verdadeiro bife de elétrons animados passeando. Que é trés chic, é...
É nadar ou afundar. Se você é bom em nadar, é só deixar tudo se afundar. O irônico é que você vai fazer isso. Não é elegante, nem um pouco. Por falar em métodos estúpidos, entra aí a morte por gás carbônico ou metano. Nojento e escatológico, um velho professor de "Moral e
Civica" dizia pra imaginar o cheiro que deve ficar em respirar em um saco plástico de supermercado. Se por alguns segundos já fica aquele bafão úmido, imagina por dois minutos ininterruptos?
A culpa é minha e eu coloco em quem eu quiser, pra isso está aqui a cartinha. Sintam-se todos muito responsáveis por isso e limpem bem
meus miolos que sobrarem.
Ah, quer saber? Não vou descer do ápice da minha moral, tenho um método pra acabar com tudo, a minha lírica e ver a cidade pegar fogo:vou beber água!
Não sou covarde,
Dório Rodrigues
sábado, 24 de julho de 2010
Onirismo
Uma sala iluminada em degradê, sem nada. Uma pessoa qualquer, você. Camisa limpa, sapatos novos, uma fuga. Era hora de cortar tudo o que era inútil, previsível, com um gesto só. Era quase que silencioso, exceto por vozes sussurrando qualquer bobagem que ninguém nunca quer ouvir.
Havia um clima festivo e bucólico no nada, e você deveria tomar uma única decisão pra sair de tudo isso. Um gesto, é o que todos querem. O problema não está em ser ou não ser, e sim quando não se encontra em nenhum dos dois. Uma Magnum, a cabeça. Por um minuto, você percebe que era só o seu molde em cera estendido no chão.
Pense, respire... Talvez ajeitar-se em seu recinto ou até... sobrevida em cinza com "amaníaco". Você corre daquela cena e sai numa avenida larga, com cores, dores e horrores. Você vê o que todo mundo é, vários flashes cinematográficos simultâneos. Era um choque ver bonecas de carne que só serviam para demonstrar tecnologia cobertas em fluidos aleatórios. Era a moda. Só porque você é paranoico, não significa que seus medos não aparecem quando você os chama.
Chegou a um jardim amplo, um corte que sangra, o beijo que escarra. Você estava só, sem paredes que sugam seu pouco oxigênio. Era o mais belo raio de sol, sem qualquer presença humana. Era 4 de Julho, com uma sala iluminada em degradê. Nada.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Canção da Raiva
Mais rápido que uma bala
Grito de pavor e morte em sala
Ar seco e gélido em cinza
É giz, é pedra! É briza
Dois moleques escrotos gritam
Neurônios e livros fritam
Hércules - Quasímodo
Com a luz apagada é melhor
"Eu grito, eu corro, eu morro"
Sorte, meus amigos,
Você sabe quem é intocável
Ainda choram por um pretérito imperfeito
Foi o eu lírico, espere até terminar
A culpa é minha, coloco em quem quiser
Desabafo - Parte 1 1/2
A energia está em constante transformações e suas aplicações são as mais diversas. Em pensar que a energia que está sendo empregada para você ler esse texto já esteve em algum tempo remoto na fusão do Hidrogênio, lá no núcleo do Sol... Tempo, Espaço, Energia: um ciclo. Seria irreversível?
Talvez o cérebro, em suas muitas reações, tenha muita convertida. Seja pelo contexto, seja por um movimento interno, os pensamentos estão em constante renovação. A mente que se abre para uma ideia nova jamais volta ao seu tamanho original, mas será que é interessante deixar de lado aquela velha ideia de "não temos mais nada a aprender"?
Não pretendo entrar em uma discussão maior sobre isso. As pessoas se prendem muito aos padrões de comparação para ganhar algum conhecimento e, bem, grande parte do que foi feito pela humanidade até agora é baseado na comparação. Fica aí um começo de texto fraco e sem inspiração.
quarta-feira, 5 de maio de 2010
O Walter Rego
O dia esta se esvaindo e de repente estava eu, apenas um humano, comum, mortal e de encontro comigo mesmo. Arrisquei uma pergunta:
- Tem alguém aí?
Um silêncio debochado foi tudo o que tive como resposta. Juro ter ouvido um risinho maroto.
Toc! Toc! Toc! Opa, agora era de verdade. Alguém estava batendo e o som vinha... de dentro do meu corpo?
- Quem é você? O que quer de mim? Apareça!
- Rego, Walter Rego. Infelizmente, não posso me mostrar pois não tenho existência, apenas localização. Eu continuo a viver por você quando está inconsciente. Ou seja, você vive o dia a dia e eu vivo o sonho a sonho, pesadelo a pesadelo.
- Vai dormir!
- Não durmo.
Mais cedo ou mais tarde aquilo aconteceria: o dia em que confrontaria a mim mesmo. Teria que lutar comigo? Seria possível domesticar o meu ser? Todos temos segredos que não contamos nem a nós, temores que nos acompanham pela vida toda e sonhos que sabemos que nunca se realizarão.
- Lembra que antes de nascer, você assinou um contrato? Agora não adianta querer rever as cláusulas!
- Achei que fosse óbvio tentar modificar algumas cenas...
- ... os nossos óbvios são diferentes, entendeu?
- "Marromeno"...
- O cheque mate vai ficar para o próximo pesadelo, bonitão.
- Tá, então. Tchau! Um "cardiósculo"!
- Calma aí! Não é bem assim.
- Por que não volta para seu lugar e voltamos a viver como dois?
- Nem pensar! Como é que você vai viver sem suas fantasias? Por falar em fantasia, naquela selva...
- Tá bom, podemos viver como Tarzan e Jane.
- Só uma coisa: mim Tarzan, tu Jane! HAHAHAHA
sábado, 17 de abril de 2010
Desabafo - parte 1
Estou sem escrever por aqui desde Março, creio eu. Certo que ninguém realmente lê isso daqui, então não faz tamanha diferença assim. O fato é que a alma já se foi em cada escrito, e se ela voltar desse "recesso", ainda vai demorar um tempinho.
Pois bem, estava a acessar algum blog"feliz" quando se depara com esse aqui? Que pena, acho que você não vai encontrar as notícias mais distantes do seu umbigo, como "fulano morreu" ou "ciclano jura amor eterno", sequer sobre roupas e outros. Tudo bem, ainda dá pra matar o tempo com alguma piada, alguma verdade.
Será que os sentidos representam um elo com o meio externo tão confiável? O que se associa ao ser ou não ser? Independente das respostas dessas perguntas, há de se aceitar que as únicas certezas na vida ainda são que nascemos e um dia morreremos, talvez o que dê margem a um fenômeno irreversível.
O tempo passa, parece que mais rápido quando se é velho e cansado. Vide, tempo é associado a deslocamentos (por exemplo, é o referencial que indica que tal movimento foi concluído ou não). Em partes, temos sua percepção aos sentidos tridimensionais como linear e dividido em blocos distintos: passado, presente e futuro.
O passado é, evidentemente, o que já fora realizado e por suas circunstâncias não pode ser repetido exatamente (não volta). O presente representa vagamente o momento atual, algo em constante manutenção, já que o presente sempre se torna passado. O futuro, por sua vez, é a gama de possibilidades que existem em torno do movimento seguinte, e é construído por cada decisão tomada.
Acostumamo-nos com essa interpretação, e também com a de espaço. Desde que você nasceu, já há um relógio biológico operante e aos poucos sua visão vai ganhando forma. Talvez quando você era mais novo, via um filme de maneira diferente, muito em parte pela maturidade ou experiência adquirida com a vida. Vale lembrar que a experiência também é um navio com os faróis apontados para traz.
O irônico é que, por mais que haja uma gama de possibilidades infinitas abertas para as decisões tomadas, há também o que já fora determinado pelo código genético. Como o seu nariz pode parecer, seus traços e muita coisa de comportamento. Acredita-se que algo em torno de 75% da personalidade é determinada pelos laços familiares e o meio.
Desprezando qualquer conotação religiosa, já pensou na existência de planos (ou percepções, se preferir) diferentes? Talvez superiores não seja um termo tão certo, por hora, diferentes. Já foi dito ainda nesse blog sobre a questão da memória, mas vale reforçar que é selecionada pelo mesencéfalo o que é considerado importante. Uma linha tênue entre o subjetivo e objetivo, a memória é parcial e construída aos poucos pela interpretação do que é considerado lembrança.
Quem sabe em alguma outra dimensão, agora você esteja nascendo? Quem sabe você não é um olhar que se firmou nesse corpo aqui na Terra, um sonho que um dia será despertado na sua própria existência? Termino essa ladainha no próximo post, acho que você pode procurar sob outra perspectiva o blog "feliz".
terça-feira, 16 de março de 2010
A Culpa
Por debaixo da ponte, um trovão
Bem vindo ao Clube dos fracos e esquisitos
A miséria quer companhia, é Rock'n'Roll
Só é bom quando é sujo
O amor de dois, isso é
Uma conclusão de virtude
Conjunto de metáforas,
A justificativa do desejo
Sempre úmido, culpa
Por debaixo da ponte, gotas
Quente, mas frio, culpa
É só o lado do arco-íris
Agora você conseguiu
Muito para se matar
Mas ela só queria limpo
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Hibridismos Travessos
Lutuoso, vazio, lutulento. Não havia sequer um sinal de interação humana naquele ambiente. O beijo do vento nas folhas provocava uma vaga sinfonia doce e amarga. Uma saudação do etéreo, um momento que o código era finalmente abafado.
A morte. Ah, a morte em sua situação mais isolada do contexto humano. O transcendental pelo transcendental, arte pela arte. Seria esse o raio de sol mais belo? Cada um com seu sabor, ironicamente, era uma bioluminescência.
Estável. Troco meu repouso para entrar agora em equilíbrio com sua dor. Recebo prazer, recebo dor. Oscilo, vibro com suas ondas. O perfume perfeito do lugar, doce veneno "coitado", ele nasceu sem odor próprio.
Árvores e sepulturas fendidas que aos poucos vazavam a tripa de luxo para a vida. Era uma homenagem do vício à virtude.
O céu é a ambiguidade mais idílica, um desafio ao quoeficiente intelectual e potencial humanos. Um guia, uma benção. Em pensar que os antigos olhavam para cima para se localizarem, e nós olhamos para baixo. Pingos e pingos...
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Balanceamento
De um lado, nostalgia e talvez 1,5 mol de acetilcolina. Do outro, um rótulo e linfócitos aflitos. Isso fica como uma fuga na qual estão pintadas em vermelho as palavras na face de hoje, enquanto o "meu" se manifesta como uma fase alternativa de repressão.
A frequência média de ondas eletromagnéticas liberadas a cada sinapse se "ajusta" na relação com um contexto complexo. Peptídeos liberados e dependentes do referencial de cada membrana e do lítio. Seria isso uma forma de emoção?
Cada harmonia certa e impulso certo no momento causa uma reação de mesma intensidade. Será o zero realmente desprezível? Será o zero um campo maior para a expressão das infindas possibilidades de expressão de cada matéria?
Desligando-se da visão consciente, maneira de mergulhar em si e ver à distância pelo treino diário para a morte. Visão está quase em equilíbrio com a cultura, que é uma opinião com perfume.
Em dado sentido, uma ruptura que origina a cristalização do conceito de massa e corpo. Será o Conjunto Universo uma estabilidade imperfeita ou uma instabilidade perfeita?
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Movimentos para os podres
espinho, espinha.
Interpretação, interpretação...
Eu vou te matar?
Morte, morte
Dor, Dor
Sangue (sangue?).
Violência... Instável.
Sem sinais vitais.
Merda, merda.
Vácuo, vacúolo.
Tenso, tenso
Ativo.
É disso que se faz
Por isso que é feita,
Enquanto tiver lítio,
Pão, circo e orgia.
Eu não ligo, eu não me importo
De qualquer forma, sua boca estará cheia de vermes.
De qualquer forma, o Deus vira a merda do mendigo.
De qualquer forma é de qualquer forma.
A maior alergia é a vida que posso ter.
Minha diabetes é salgada pela falta do doce.
Doce, Doce. A vida é amarga.
Squirt idílico doce.
Oh! A falta de código se enriquece nos livros
A cultura às vezes é só uma opinião com perfume,
O abstrato do auto-retrato.
Sim, senhor e grande irmão
Vamos brincar de pseudo-democracia.
Sua piscina está cheia de ratos
E sua mente está cheia de vermes,
Alguém de um lugar remoto
Te controla na palma da mão.
Foliculite crônica...
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
O Código
Lá estavam envoltos naquela dança singela. Em meio a palavras de semântica tacanha e vetusta, o gelo se rompeu em um movimento brusco e magistral. Com tamanha mistura de códigos e vagamente sincera, podia se ver uma idílica sinergia lexical.
Era uma celebração que permaneceria como uma trova até o cair do sol, apesar de o status quo de seus participantes ser de extremo prazer. Uma simbiose que se fazia por cada relação dos conceitos, um diálogo em sua maneira ? Havia harmônia entre eles, uma equação perfeita. Será que o sempre seria sempre assim?
A ternura daqueles participantes era volátil. Será que átomos não morrem? Segundas são iguais, mas naquele momento os segundos não eram unidirecionais, e cada impulso nervoso era coordenado de maneira à desproporcionar os contínuos espaço-tempo. Carícias dóceis por cones e bastonetes também eram bem vindas.
Por fim, o silêncio (que é igual para todos, mas tem como principal referente o contexto) foi quebrado. Após sentarem no topo do mundo, uma grande depressão assolou ambos. Com a falha na linguagem, só restaria uma maneira de restabelecer uma atração entre aqueles dois códigos: um beijo, que representa o caminho mais doce de ascender a dinâmica entre os corpos quando palavras são desnecessárias. As máscaras caem e a linguagem, até certo ponto vaga, amplia a semântica daquele caldeirão cultural.
Duas almas numa dança etérea transformam-se num "pas de deux". É a paz dos deuses...
sábado, 2 de janeiro de 2010
Étoile... Uma casa aquarela
Era uma preciosidade única, enquanto a crueza daqueles que amava jogava-me pedras e flores.
Um lapso inconsciente? Talvez, mas se banhasse minha vida com certezas, a maior naquele momento seria que o contexto é uma mentira ainda maior. Agora, era azul. O verde, cinza.
Um copo com leite e cacau. Aquilo com certeza romperia o equilíbrio em relações traçadas para uma linguagem maior, mas era confortável. Uma função da linguagem, emotiva. Doce endorfina que pairava no céu.
De repente, em meio àquela confraternização, um insight idílico em um suspiro de memórias. Bela nostalgia, uma fuga que podava o inútil para a chegada de uma conclusão. Em uma música alta, fazia-se o eufemismo que rondava aquela cápsula absolutamente segura, e de maneira sutil: fugir do algorítmo abstruso e ver além, ter uma breve sensação de controle sobre a morte (talvez a mudança) e que de tudo se apoderava. Buraco negro... Era 6 de Janeiro.