quarta-feira, 28 de julho de 2010

Mnemônico

São Paulo, 21 de Maio de 2009
Querido Leitor,
Tudo passa, até a vida. De fato, para morrer só precisa estar vivo, como já dizia aquele velho bêbado de fim de noite da sua cidade preferida. Só quero adiantar esse processo, o que pode dar um pouco de trabalho.
Estou deixando esse bilhete, sobre o que por toda minha vida procurei. Tudo o que eu quero, preciso, é ter uma partícula que seja minha participando do desabrochar de uma rosa ou o canto de um pássaro.
Cortar-me-ei... tá aí uma coisa poética, bonita. É o único método que dá pra voltar atrás na decisão até pelo menos a metade do processo e sair. Olha que bonitinho e melodramático, ter o sangue saindo e, para manter a pouca chama acesa, ficar em uma banheira quente de quarto de
hotel de quinta categoria.
Melhor: posso dar um tiro na cabeça; Fácil, rápido e simples. Será perto de casa mesmo, o problema é errar milimetricamente a angulação
do tiro e pegar em alguma área não vital de coordenação muscular. Tentar outra vez esticado em uma cama de hospital com metade da cara paralisada é... esquece.
Beber até cair... Já faço isso, então não é em uma noite que vou tomar um porre dos infernos e morrer. No máximo, leitor, aí vai uma diarreia aguada, vomitar até as córneas saírem e ter mais uma ressaca. Vou estar como um zumbi decadente e na merda (literalmente), não morto. Pelo menos o barato vai ser inesquecível.
Remédio é coisa pra quem quer chamar a atenção, sabe? Se pelo menos morasse sozinho... Minha santa mãezinha sempre disse para ter cuidado com os venenos, como ela diz, e provavelmente me encontraria zureta e caído depois dessa. A lavagem intestinal não vai ser nada legal depois, mais ainda quando aquela enfermeira gostosa rir da minha cara quando estiver zonzo na cama.
De qualquer forma, é penoso, mas vai ter que ser em casa, sozinho. Longe de casa teriam mais custos e também, se me encontrarem
aberto e em decomposição num matagal há 300 Km de casa com aquelas revistas que o Armandinho trouxe da Holanda, só aumentariam os rumores e humores. No meio de muita gente, seria uma gafe enorme e sem saída se não conseguisse.
Precipitação em queda livre, já que todo mundo sonha em voar. Seria unir o útil ao agradável. O baricentro dos meus problemas, possuo sequer algo Normal. E se eu não me estabacar logo e tiver que suportar a vida inteira na cama com alguém pra me limpar?
Que tal eletrocutado? É chique, digno e possui um "quê" do velho causo acidental do barbeador ou secador na banheira. Pena que tem um monte de imprevistos na prática que podem me deixar como um verdadeiro bife de elétrons animados passeando. Que é trés chic, é...
É nadar ou afundar. Se você é bom em nadar, é só deixar tudo se afundar. O irônico é que você vai fazer isso. Não é elegante, nem um pouco. Por falar em métodos estúpidos, entra aí a morte por gás carbônico ou metano. Nojento e escatológico, um velho professor de "Moral e
Civica" dizia pra imaginar o cheiro que deve ficar em respirar em um saco plástico de supermercado. Se por alguns segundos já fica aquele bafão úmido, imagina por dois minutos ininterruptos?
A culpa é minha e eu coloco em quem eu quiser, pra isso está aqui a cartinha. Sintam-se todos muito responsáveis por isso e limpem bem
meus miolos que sobrarem.
Ah, quer saber? Não vou descer do ápice da minha moral, tenho um método pra acabar com tudo, a minha lírica e ver a cidade pegar fogo:vou beber água!
Não sou covarde,
Dório Rodrigues

sábado, 24 de julho de 2010

Onirismo

Uma sala iluminada em degradê, sem nada. Uma pessoa qualquer, você. Camisa limpa, sapatos novos, uma fuga. Era hora de cortar tudo o que era inútil, previsível, com um gesto só. Era quase que silencioso, exceto por vozes sussurrando qualquer bobagem que ninguém nunca quer ouvir.

Havia um clima festivo e bucólico no nada, e você deveria tomar uma única decisão pra sair de tudo isso. Um gesto, é o que todos querem. O problema não está em ser ou não ser, e sim quando não se encontra em nenhum dos dois. Uma Magnum, a cabeça. Por um minuto, você percebe que era só o seu molde em cera estendido no chão.

Pense, respire... Talvez ajeitar-se em seu recinto ou até... sobrevida em cinza com "amaníaco". Você corre daquela cena e sai numa avenida larga, com cores, dores e horrores. Você vê o que todo mundo é, vários flashes cinematográficos simultâneos. Era um choque ver bonecas de carne que só serviam para demonstrar tecnologia cobertas em fluidos aleatórios. Era a moda. Só porque você é paranoico, não significa que seus medos não aparecem quando você os chama.

Chegou a um jardim amplo, um corte que sangra, o beijo que escarra. Você estava só, sem paredes que sugam seu pouco oxigênio. Era o mais belo raio de sol, sem qualquer presença humana. Era 4 de Julho, com uma sala iluminada em degradê. Nada.