Adoro ver documentários televisivos brasileiros sobre a realidade sócio cultural de países de altos índices de desenvolvimento humano e afins. Não tanto pelo lado informativo, que também é enriquecedor, mas principalmente pelas alfinetadas implícitas que colocam ao "grande vira-lata" nessas produções. O quanto, comparativamente, nos é passado de maneira bem digerida e empacotada toda uma ideologia de inferioridade do Brasil e do brasileiro.
Críticas construtivas ao caminho desse país do futuro não faltam, sendo todas essas na realidade conectadas a um único fato: trata-se de um país muito vasto, em todas as conotações que podem ser atribuídas. Territorialmente extenso, o suficiente para ter tantos domínios ecológicos e respectivas zonas de transição encaixados em um mesmo bloco de fronteiras artificiais. Social e culturalmente, por tantas origens distintas e pelo patrimônio de alta diversidade que surpreendentemente é coeso nessa mesma sociedade. E não podemos nos esquecer das outras sociedades que aqui se inserem também, sendo as indígenas e quilombolas expoentes facilmente reconhecidos.
No geral, são escolhidas a dedo por esse tipo de produção países territorialmente muito menores, o que por si só representa menos espaço para as dinâmicas já citadas. Essa não é uma variável levada em conta, e supõe também uma vista grossa coletiva sobre a correlação de nossos problemas com outra "variável de amplitude", a das desigualdades sociais. Historicamente institucionalizadas, "em outra época", mas de impactos culturais inegáveis (ou seria todo o recente choro de uma certa classe média sobre a intervenção na situação de "senzala contemporânea" de domésticas, por exemplo, mera coincidência?)... É espantosamente comum também ver como toda a agressão sistemática aos direitos humanos dessa "tão, tão distante era" nunca saiu de cena. Porque tem gente querendo mais direitos do que outros, certo? Porque é tudo muito imoral nessa realidade, certo? Porque direitos humanos servem é pra humanos direitos, certo?
Divirto-me de maneira tragicômica em pensar que deve ter muita gente por aí que, em uma geopolítica doentia, aceitaria o seguinte cenário:
"O ano é 1964, e o Gigante Acordou movido pelos ideais de Liberdade, Moralidade, Família e Deus. As Revoluções daquele ano tomam um rumo interessante (ou, por assim dizer, brilhante) em sua configuração na política internacional. Divide-se o território em duas áreas de influência: o Brasil do Norte e o Brasil do Sul. Há também duas subunidades mistas de influência, Brasília e São Paulo. O medo vermelho, senhores, foi domado e combatido ferozmente com o grande desenvolvimento do Brasil do Sul. Brasil do Sul, ame-o ou deixe-o!"
Tenho pena de quem vê coerência nesse cenário estapafúrdio, de quem acha que daria para andar com mais segurança pelo hipotético Brasil do Sul do que pelas nossas ruas. Sobre toda essa onda reaça, com uma descontinuidade mental grotesca quanto ao ciclo de exclusão social vigente, para essa sim há uma proposta de intervenção muito mais eficiente: conhecimento. Sim, aquele conhecimento parte de uma consciência social ampla, bem informada quando aos impactos sociais benéficos de Leis de Cotas, medidas assistencialistas, e toda a lista já batida de criticas comuns. Todas essas medidas consideradas apenas parte de "mais um sistema corrupto", só medidas de curto prazo.
E que venham também todas essas grandes reformas de longo prazo (que não exatamente os reaças declarados, mas a grande sociedade prega)! Todo esse "investimento em saúde, educação, transporte...", que já virou o etcetera da redação de muita gente. Do mais, e voltando aos programas sobre "outros países melhores do que a gente", que consigamos também enxergá-los com maior crítica, pra romper-se com toda essa Projeção na Caverna. O desvio padrão social sim é a raiz da variância.