As sombras dançavam por todo lado. Onde e em que elas passam são comovidos por seus movimentos, alguns delicados e acolhedores e outros capazes de tornar um ser seu próprio inimigo. Como um Ballet da Libertação, o que era passado por elas agora era único.
Não existia o nojo pelo alimento, a repulsa e o gosto. Existia a necessidade básica satisfeita, apenas. Não existia alguma incapacidade emocional maior, existia o aprendizado sem a cobrança de um circo de palhaços irracionais. Talvez fosse maior que o estado da estrela, maior que o tempo.
O pequeno quarto decrépito e devastado pela própria desagregação do momento era o palco para a dança de ideias. Como uma ideia, se bem introduzida, pode contaminar alguém... Parti para o delírio de pensar além do fim, já que não é bom se espantar pelo que é colocado sobre esse marco. De fato, até a ideia de fim se liga com o tempo.
Algo semelhante a um canudo com muitas asas, claro e veloz passa pela projeção quase cinematográfica da janela para quebrar o que era muito além de um simples vício. Doce ilusão... "Transfira seu prazer! A energia é constante assim." Disse o traço intrigante que quebrou a dança. Se todo homem dissesse o que sabe, se o seu modelo fosse verdade...
Sinos dourados gritaram o pensamento cinza. O gosto voltou, assim como o choro da alma com cada gota da chuva de metano em Titã, baixíssima temperatura e extremos potencializados nas estações. O que poderia fazer ainda era contemplar o conhecimento sem culpa. Culpa...
Chorei então quando desprendi esses últimos laços que seguravam a casa aquarela, era o ar. Já sabia que agora o rei era as fezes do mendigo, o cachinho da menia, o sentimento que aqui nasceu e morreu. Seria agora tortuoso pelos caminhos errantes?
domingo, 24 de outubro de 2010
sábado, 2 de outubro de 2010
Afável
Eram sussurros, que acariciavam, pulsavam e seduziam ao toque. Sozinhos, a olhar o cruzamento entre as paralelas do destino. Entre quatro paredes úmidas e fendidas seria o suficiente para infindo surto. O homem só se olhava no espelho e com uma inocência irônica tentava manipular o reflexo.
Grasnou qualquer coisa, seja para que o grotesco estrondo dentro de si cessasse ou só para ser desagradável mesmo. Precisava fazer alguma coisa, precisava fugir de si. Olhou, pegou, bocejou, se coçou, caçoou... estava feito, iria fazer algo.
Não poderia ser. Era estrambólico demais, logo para ele. Já até sentia a sátira alheia sobre sua alma perdida. Por que logo ele? Por que... com aquilo? Deveria ser tédio demais, ah, se era. O reflexo, que continuava a encará-lo, queria ir embora. Era o fim.
Deveria escolher um lugar que o deixasse com alguma liberdade para acabar com aquilo o mais rápido possível se fosse necessário. No divã? É óbvio que seria difícil sentar-se depois, mas iria ficar parado e descansar. Talvez isso seria um incômodo. Será que causaria alguma ferida?
A atmosfera estava favorável. Não haveria outra escolha, já separou aquele objeto fálico mesmo. Agora não poderia fisicamente se arrepender. Contando até três para o movimento final. A família, os amigos, o seu "eu" do homem branco corporativo e maduro não iriam aceitar. Não precisavam mesmo entender, gostava da ideia.
Um - posicionou os joelhos para que o resultado fosse melhor. Dois - coordenava os braços, portadores daquele "frasco" de quinta categoria que o consolava, com as pernas. Dois e quase meio - Tem certeza? Por isso fechou os olhos, era agora. Três... pernas e cabeças voando no logradouro marrom-cinza debaixo da janela da clínica, acertou uma senhora que a pouco lamentava os parágrafos que a vida escreveu para ela. "Filho da puta!". Correu e deu uma risadinha. Era uma vez o reflexo envergonhado de um terapeuta ocupacional.
Grasnou qualquer coisa, seja para que o grotesco estrondo dentro de si cessasse ou só para ser desagradável mesmo. Precisava fazer alguma coisa, precisava fugir de si. Olhou, pegou, bocejou, se coçou, caçoou... estava feito, iria fazer algo.
Não poderia ser. Era estrambólico demais, logo para ele. Já até sentia a sátira alheia sobre sua alma perdida. Por que logo ele? Por que... com aquilo? Deveria ser tédio demais, ah, se era. O reflexo, que continuava a encará-lo, queria ir embora. Era o fim.
Deveria escolher um lugar que o deixasse com alguma liberdade para acabar com aquilo o mais rápido possível se fosse necessário. No divã? É óbvio que seria difícil sentar-se depois, mas iria ficar parado e descansar. Talvez isso seria um incômodo. Será que causaria alguma ferida?
A atmosfera estava favorável. Não haveria outra escolha, já separou aquele objeto fálico mesmo. Agora não poderia fisicamente se arrepender. Contando até três para o movimento final. A família, os amigos, o seu "eu" do homem branco corporativo e maduro não iriam aceitar. Não precisavam mesmo entender, gostava da ideia.
Um - posicionou os joelhos para que o resultado fosse melhor. Dois - coordenava os braços, portadores daquele "frasco" de quinta categoria que o consolava, com as pernas. Dois e quase meio - Tem certeza? Por isso fechou os olhos, era agora. Três... pernas e cabeças voando no logradouro marrom-cinza debaixo da janela da clínica, acertou uma senhora que a pouco lamentava os parágrafos que a vida escreveu para ela. "Filho da puta!". Correu e deu uma risadinha. Era uma vez o reflexo envergonhado de um terapeuta ocupacional.
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